terça-feira, 24 de maio de 2022

A companheira

 

A campainha tocou, abruptamente, ele se levantou da cama. Como sempre, olhou-se no espelho. Viu o semblante fadigado, exibido na barba por fazer. Bocejou, arregalou os olhos, até que em definitivo, abriu a porta. Do outro lado, ela estava lá, e, embora um pouco acanhada, resolveu entrar.

Elegante e lacônica, sentou-se no sofá de almofadas vermelhas. Cruzou as pernas e braços, contraiu os lábios para permitir, que o silêncio dissesse o indizível. Ele, por outro lado, chamou-a para um café. De convite aceito e sentados à mesa, ambos se entreolharam, possuídos pela circunstância presente.

As mãos encolhidas, apenas se soltavam para enlaçar o contorno da xícara. Sorrisos, confissões, após a refeição, ele recolheu o pires sujo e com um pano úmido, aparou os farelos de pão.

Na sala, ela o observava, contemplava seus traços, rugas e dentes. Ele por sua vez, deslizava seus dedos entre as páginas de um livro. Queria ler poesia, mas preferiu abrir a janela e reverenciar a paisagem lá fora. Entre sussurros e vozes remotas, o dia se derretia em seus dedos.

Passou então, a pensar na vida, nos amores passados, na sutileza da existência humana. Não demorou muito e o vento afagou seus cabelos grisalhos. Já contrito, relembrou da infância, da primeira professora, do primeiro beijo. Dos sonhos não realizados e do presente amortecido pela insatisfação.

Entre o ser e o estar, estabeleceu – se a ligação de viver só. Já amuado, decidiu reverter aquela situação. Aproximou-se do rádio e sintonizou numa estação. A melodia lenta e melancólica ecoava nos quatro cantos da casa.

Possuído por sentimentos contraditórios, ele puxou sua companheira contra seu peito e a tirou para dançar. De um lado, para outro, os passos tímidos seguiam. Não havia pressa para o fim. As horas não importavam. Aquele momento pertencia a eles, o mundo girava, o tempo iludia os ponteiros. Em um dado momento, esqueceram-se de tudo, dos erros e obrigações, da morte iminente, das incertezas. O hoje era sonoridade, momento eterno.

Compassados, eles ensaiaram um beijo, mas ela negou sua face, antes que o encontro dos lábios fosse inevitável. De olhos baixos, decidiu que havia chegado o instante de partir. Triste, ele atendeu ao seu pedido. Perguntou, quando a veria outra vez...Ela não o respondeu. E foi assim, que a solidão caminhou até sumir ao virar o corredor.

 

 

 

 

 

 

 

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2022

Olinda

 

Ele e ela se encontraram às margens do rio Capibaribe. E se perderam, descendo as ladeiras de Olinda.

domingo, 2 de janeiro de 2022

Por favor, ensina-me a amar!

 

Venha, anoitece agora. O Sol se despede do Ocidente, para despertar do outro lado do mundo e queimar os corações vazios. Rezo uma oração, todas as vezes que você se encolhe em meus braços curtos e quentes. Aperto-te forte, para que esqueças das feridas riscadas sobre tua pele já cansada.

Então, venha! Não temos muito tempo. Contudo, enquanto ele se distrai com o balé das horas, permaneço aqui contigo, nessa luta brusca que é viver. E tudo aquilo que nos é permitido, devemos abraçar como se fosse nossa última e única missão.

 Por favor, venha! Agora assistimos ao nascimento das joias de Deus a despontar no horizonte. Veja o formato delas, de como cintilam, de como piscam, conforme o ritmo que mais lhes agradam.

 Por isso, venha! Não há fuso horário, linhas ou meridianos que nos separem. Dos traços imaginários, prometo desenhar uma ponte que sirva de passagem para nossa união: o amor.

Venha, porque das dores amorteço a certeza de que o amanhã é uma folha em branco, que logo será escrita com letras tortas ou lineares, versos datilografados de talvez...

Então, venha! Porque a vida, meu amor é o sopro do vento, a neblina da manhã, a chuva de verão, o sorriso roubado e o beijo sonhado. Venha, porque não podemos desprezar os gestos de amor e muito menos a Lua, que belisca as pontas do teu telhado.

Venha, segure firme! Você sabe que o tempo é o mestre dos ponteiros e o relógio é apenas o seu subordinado.

Portanto, venha! Pois entre o ontem e o amanhã, o agora é tesouro achado, nas mãos daqueles que amam, até nos últimos instantes dessa epopeia, que singularmente nos abraça.

Amor, venha! Amanhece agora, o orvalho umedece o teu coração fadigado. Daqui a pouco, o Sol surgirá imponente para encorajar os homens e mulheres, queimará nossas tristezas e aquecerá nossas alegrias.

Venha e se algum dia meteoros caírem sobre nós... Eu e você seremos fragmentos estrelares a divagar pelo universo.

 

domingo, 12 de dezembro de 2021

Estrela Cadente

 

Não é um míssil

Que traceja o céu assombrado.

É uma estrela cadente,

Pronta para atender

Ao pedido de alguém.

domingo, 21 de novembro de 2021

O peso

 

Após a aula de Língua Portuguesa, a docente pediu ajuda para alguns alunos levarem os dicionários de volta à biblioteca.  Durante o trajeto, um dos discentes comentou:

  Esses dicionários pesam!

A professora, pensativa disse:

— Agora você entende, o peso que as palavras possuem!